Reinos Bárbaros
No
século VI o código dos francos conhecido como Lei Sálica
classificava de bárbaro quem não fosse romano ou franco, enquanto
Teodorico (c. 473) excluía dessa classificação apenas os romanos e
godos. Já Isócrates (Penegírico) considerava bárbaro todo aquele
que não adotasse os costumes gregos. Na verdade, sob o vago conceito
de bárbaro os autores antigos ocultavam a ignorância da diversidade
étnica e cultural de seus inimigos. Foi só no século VII que o
termo ganhou o significado depreciativo de pagão, ou seja, germano
não cristianizado, enquanto romano era o católico dos novos reinos
europeus.
A
criação dos novos estados "bárbaros" no final da
antiguidade assinalou o fim do Império Romano do Ocidente e deu
origem às formações políticas da Europa moderna.
A
expressão "invasão dos bárbaros" é criticada pela
historiografia moderna, por dar a idéia de uma avalanche migratória
fulminante. Na verdade, foi um movimento gradual, lento e
desordenado, caracterizado pela penetração sucessiva, nas terras
dominadas por Roma, de grande número de nômades, em sua maioria
componentes dos chamados germanos (godos, vândalos, francos,
lombardos, suevos etc.). Essas migrações ocorreram entre os séculos
II e XIII, desde a arremetida dos teutões rumo ao Mediterrâneo até
a chegada dos mongóis à Europa em 1237-1241.
A criação dos novos estados "bárbaros" no final da antiguidade assinalou o fim do Império Romano do Ocidente e deu origem às formações políticas da Europa moderna.
Direções do movimento
O
período crucial das penetrações, conhecido como invasão dos
bárbaros, situa-se entre os séculos IV e VII. Pode ser dividido em
três momentos: (1) séculos IV a V -- processou-se a ocupação do
Mediterrâneo ocidental pelos hunos, alanos, godos, vândalos, suevos
e búlgaros; (2) séculos V a VI -- os francos, alamanos e bávaros
estabeleceram-se na área compreendida entre os Pireneus e o Reno;
(3) séculos VI a VII -- a Itália e as estepes euro-asiáticas
sofreram a penetração dos lombardos, ávaros, búlgaros e eslavos.
Simultaneamente, o noroeste europeu recebia invasores marítimos,
como os saxões, escotos, pictos e bretões, sobretudo nos séculos V
a VI.
O
historiador romano Tácito, a melhor fonte a respeito, descreve em
detalhe os germanos. Principais protagonistas das primeiras migrações
bárbaras, não conheciam a escrita -- estavam ainda na
proto-história. Sua religião era politeísta, de inspiração
naturalista, já que seus deuses personificavam forças da natureza.
Hábeis no manejo de armas, eram altos, de cabelos louros e fartos, e
olhos azuis. Caçadores, agricultores e pastores seminômades, viviam
em pequenas aldeias do norte da Europa. Possuíam indústria
rudimentar e seu comércio se limitava à troca de produtos. As
tribos eram formadas pela união de várias aldeias e contavam no
máximo de quarenta a cinqüenta mil indivíduos, chefiados pelo rei
(koenig), cuja principal função era dirigir a tribo nas guerras.
Nos tempos de paz, o poder do rei era limitado por um conselho de
chefes de família.
No
século IV as principais tribos germânicas eram os francos,
estabelecidos nas margens setentrionais do Reno; os saxões,
localizados às margens do mar do Norte; os vândalos, estabelecidos
às margens do mar Báltico; os suevos, encontrados às margens do
rio Elba; e os lombardos, localizados na região atravessada pelo rio
Oder. Outras tribos germânicas que desempenharam importante papel
nas migrações foram os godos: os visigodos ocupavam as regiões do
baixo Danúbio (Romênia atual); e os ostrogodos dominavam as terras
localizadas ao norte do mar Negro.
Relações
com o Império Romano. Roma já combatia cimbros e teutões desde o
século I a.C. e Júlio César enfrentou os germanos para fazer do
Reno a fronteira da Gália. Augusto mais tarde tentou conquistar a
Germânia, mas o fracasso do general Varo, no ano 9 da era cristã,
levou os imperadores seguintes a adotarem uma política defensiva,
limitando-se a consolidar a fronteira do Reno e do Danúbio. Daí a
construção dos famosos limes (fronteiras fortificadas). Essas
medidas, contudo, não impediram as infiltrações pacíficas dos
germanos no mundo romano, na qualidade de escravos, colonos e
soldados.
É
possível que secas prolongadas na Ásia Central tenham dado o
impulso inicial às migrações de bárbaros que vinham ocorrendo
desde o terceiro milênio a.C., sempre em sentido norte-sul e
leste-oeste. Desarticulados e destituídos de tradições comuns, os
bárbaros predominaram devido sobretudo à assimilação étnica e à
interação com os antigos povos do território imperial. Os grupos
que se fecharam à cultura romana, enfatizando o aspecto militar da
penetração (godos, vândalos, silingos, suevos e outros), foram aos
poucos absorvidos pelos que aceitaram a coexistência com Roma.
Essa
coexistência seria oficializada pelo foedus (aliança), contrato
político pelo qual se reconhecia a coexistência inevitável entre
dois poderes: os chefes bárbaros, obrigados a servir aos interesses
romanos, e o governo imperial, incapaz de impedir a fixação dos
invasores, disposto a fornecer-lhes víveres e abrigo. O foedus
começou a ser praticado em larga escala a partir de 418, com os
visigodos. Daí em diante sucederam-se as concessões: entre 433 e
438 aos suevos na Espanha; em 435 aos vândalos no norte da Numídia
e em quase toda a Mauritânia; em 443 aos burgúndios em Genebra; em
455 aos ostrogodos no lago de Balaton (Hungria) etc.
Mas
o foedus não foi a primeira tentativa de aliança de Roma com os
bárbaros. Os visigodos já tinham sido aceitos por Teodósio o
Grande como federados e instalados na Dácia. Contudo, alguns anos
após a morte do imperador, eles ocuparam de fato o Império do
Oriente e, em 410, sob a direção do temível Alarico, invadiram a
Itália e se apoderaram de Roma. Após a morte de Alarico abandonaram
a Itália devastada e, além de invadirem a Gália, onde arrasaram
Narbona, Toulouse e Bordeaux, ocuparam a Aquitânia e o norte da
Espanha (414).
Ao
mesmo tempo, mais de cem mil suevos, alanos e vândalos devastaram a
Gália e passaram à Espanha, ocupando a Andaluzia (cujo primeiro
nome, "Vandaluzia", provém deles). Sob o comando de
Genserico chegaram à África, onde ocuparam Cartago e as ilhas do
mar Tirreno. Senhores de poderosa frota, devastaram e saquearam Roma
em 455.
Em
540 Justiniano firmou um foedus com os lombardos estabelecidos na
Panônia (Hungria), para com seu auxílio enfrentar os francos e
godos que ali penetravam. Aliado aos romanos, o rei visigodo Wallia
praticamente exterminou os vândalos silingos da Andaluzia (418),
enquanto grupos mais fracos, como os alanos, com freqüência se
dispersavam e passavam em massa para o exército romano. As cisões
mais notáveis dos povos bárbaros, por falta de uma orientação
comum que os unisse, foram a dos godos, divididos em ostrogodos e
visigodos (c. 230), e a dos vândalos, cindidos em silingos e
asdingos ainda no século I. Essas divisões facilitaram o extermínio
de algumas formações bárbaras como os hunos (desde 453) e os
suevos (585), anexados a entidades políticas mais sólidas,
escravizados ou assimilados culturalmente.
Ainda
no século V várias tribos germânicas iriam se estabelecer em
regiões desguarnecidas do ocidente romano: os anglos e saxões se
fixaram na Inglaterra ("terra dos anglos"), os burgúndios
ocuparam as margens do Saône, os alamanos radicaram-se na Alsácia.
Enquanto
o império perdia a África, os hunos, após dominar os ostrogodos,
prosseguiram sua marcha para oeste e se estabeleceram,
provisoriamente, na região do Danúbio (atual Hungria), de onde
desceram para tomar Belgrado, depois Nish. Em 450 se voltaram para o
Ocidente. Seu chefe, Átila, à frente de numeroso exército,
destruiu Metz, Reims e Troyes, desceu para o sul ocupado pelos
visigodos e chegou a Orléans, porta meridional da Gália. Os
próprios bárbaros -- alanos, burgúndios, francos e visigodos --
defenderam o Ocidente sob a direção de Aécio e Teodorico. Esse
exército bárbaro romanizado retomou Orléans e forçou Átila a se
retirar rumo ao noroeste, para perto de Troyes, em Campus Mauriacus
(451).
À
medida que o poder de Roma agonizava, os bárbaros tomavam
consciência de sua força. Figuras como Gainas e Estilicão já
exerciam o poder de fato desde fins do século IV e, em 476, Odoacro,
chefe de mercenários bárbaros a serviço do imperador, depôs o
próprio Rômulo Augústulo e solicitou a Constantinopla autorização
para governar a Itália. Mas quem dominou a Itália de fato foi
Teodorico, chefe dos ostrogodos, que à frente de seu povo aí fundou
novo reino em 493.
Assim,
em princípios do século VI o Império Romano do Ocidente tornou-se
um mosaico de pequenos reinos bárbaros: o dos visigodos, na Espanha;
o dos ostrogodos, na Itália; o dos vândalos, no noroeste da África;
o dos francos, na Gália; o dos anglos e o dos reinos saxões no sul,
sudeste e leste da Inglaterra; e o dos burgúndios, na média e alta
bacia do rio Ródano.
As
derradeiras migrações dos germanos ocorreram na segunda metade do
século VI, quando os lombardos, pressionados pelos ávaros das
estepes asiáticas, se refugiaram na Itália. Liderados pelo rei
Alboim, dominaram as cidades do norte da Itália e, em 576, a
planície do Pó e da Toscana. Mais tarde infiltraram-se para o sul,
onde tomaram Spoleto e Benavento, Pádua (602), Gênova (640) e
Tarento (675), formando assim o reino lombardo.
Quais foram as consequências ?
Marco
cronológico entre a antiguidade e a Idade Média, as migrações
bárbaras tiveram consequências profundas. Em primeiro lugar, a
unidade do Império Romano do Ocidente foi substituída pela
diversidade dos reinos bárbaros, de onde emergiram os estados
medievais de maior importância, como a Inglaterra, surgida da fusão
de jutos, saxões, anglos e frisões.
A
falta de segurança levou à paralisação do comércio e ao declínio
das cidades. O uso da moeda se rarefez e ocorreu a decadência da
civilização greco-romana no plano político, econômico e cultural.
A forma de vida dos vencidos foi imitada, mas modificada pela
contribuição das várias culturas bárbaras, como no caso das jóias
merovíngias. Grande parte da composição étnica e da cultura
medieval acabou afetada, mesmo quando houve a dissolução dos
primitivos grupos invasores, que deixariam traços na toponímia
tradicional: Borgonha (de burgúndios), Escócia (de escotos),
Silésia (de silingos) etc. Entre os estados bárbaros que não
sobreviveram à pressão de seus vizinhos, tiveram relevância na
consolidação da Europa bárbara os suevos da península ibérica,
que entre 409 e 585 garantiram a infiltração e o estabelecimento
dos visigodos em importante área do território imperial.
A
coexistência pragmática com Roma fortaleceu as tribos bárbaras
vitoriosas e criou uma nova cultura. Perduraram, em sua essência, o
sistema municipal, a organização urbana e, sobretudo, o regime da
grande propriedade. Os novos sistemas jurídicos, que acompanharam a
consolidação política dos bárbaros, tiveram origem no direito
provincial vulgar que coexistiu com o direito romano clássico. Os
códigos bárbaros romanizantes (escritos em latim), com base no
direito vulgar, fundamentaram as normas jurídicas vigentes na alta
Idade Média. Entre esses códigos destacam-se o do estado visigodo
(Lex romana visigothorum, 506), o dos burgúndios (Lex romana
burgundionum, século VI), o dos ostrogodos (Edictum Theodorici,
século VI), e o dos francos (Lex salica, c. 507-511) entre outros.
Com
o declínio político do Império Romano do Ocidente, surge como novo
poder político o papado, sucessor e beneficiário do império, com
grande influência no processo de formação dos nascentes estados
bárbaros. Dentro do espírito de colaboração com Roma, e para
justificar seu expansionismo contra organizações bárbaras menores,
os novos reinos prestigiavam a igreja. Assim, os godos desde cedo se
converteram ao cristianismo, e um visigodo, Úlfila, chegou a criar
uma escrita e uma língua literária gótica para traduzir o Novo
Testamento (c. 340).
Difundia-se,
assim, no Ocidente, um novo tipo de civilização, com elementos
herdados de Roma e dos germanos. A maior ou menor romanização
dependeu, de modo geral, da ocupação realizada pelo Império
Romano. Dessa forma a Itália, a Espanha e o ocidente da Gália são
profundamente romanos. Já a Inglaterra e o oriente da Gália são
germanos.
Herdeira
principal da civilização latina, coube à igreja contribuir de
forma decisiva para aproximar e fundir as populações no Ocidente,
impondo a unidade cristã e a língua latina. A política de
sacralização do poder nos estados bárbaros atingiria o ápice com
os francos, a partir de Pepino o Breve (751) e é desde então que se
fixam os quadros políticos fundamentais identificados com a Idade
Média europeia.
A falta de segurança levou à paralisação do comércio e ao declínio das cidades. O uso da moeda se rarefez e ocorreu a decadência da civilização greco-romana no plano político, econômico e cultural. A forma de vida dos vencidos foi imitada, mas modificada pela contribuição das várias culturas bárbaras, como no caso das jóias merovíngias. Grande parte da composição étnica e da cultura medieval acabou afetada, mesmo quando houve a dissolução dos primitivos grupos invasores, que deixariam traços na toponímia tradicional: Borgonha (de burgúndios), Escócia (de escotos), Silésia (de silingos) etc. Entre os estados bárbaros que não sobreviveram à pressão de seus vizinhos, tiveram relevância na consolidação da Europa bárbara os suevos da península ibérica, que entre 409 e 585 garantiram a infiltração e o estabelecimento dos visigodos em importante área do território imperial.
REFERENCIAS :
New Universal Unabridged Dicionário Webster , 1972, p.149, Simon & Schuster Publishing
Editorial Atenas, os gregos sob dominação estrangeira: Otomano, franco , 1980, p. 34 (em Grego)
Marozzi, Justin. A maneira de Heródoto: Viagens com o homem que inventou História , 2010, p. 311-315
