O Bairro Sertão da Quina fica entre
Maranduba e a Serra do Mar, localiza-se a 35 km da cidade de Ubatuba e a 28 km
da cidade de Caraguatatuba. Um dos pontos mais visitados da região sul de
Ubatuba. Devido as suas belezas naturais e por ainda preservar algumas heranças
culturais deixada por moradores antigos os caiçaras, desperta curiosidade em
quase todos que vem a conhecê-lo. Seu primeiro nome foi Sertão de Maranduba,
depois Morro da Quina e atualmente é conhecido como Sertão da Quina. Bairro
populoso e com uma população, formada na maioria por migrantes vindos do norte
de Minas Gerais e sul da Bahia; época da construção da BR 101, trecho norte de
Ubatuba, onde interligou com a SP 55. Com o crescimento do turismo de massa e
da especulação imobiliária, principalmente em Maranduba,
com condomínios, hotéis, pousadas, residências et., houve a explosão demográfica popular do Sertão da Quina, antigamente Sertão da Maranduba, explorados pela indústria turística e em nome do progresso. Mas com um pesar! Pois são pouquíssimas pessoas, esses remanescentes que possam passar sua cultura, sabedoria, histórias, tradições e costumes que adquiriram dos seus ancestrais. Esses remanescentes são o elo entre o século XIX e o século XX, que adentram ao século XXI.
com condomínios, hotéis, pousadas, residências et., houve a explosão demográfica popular do Sertão da Quina, antigamente Sertão da Maranduba, explorados pela indústria turística e em nome do progresso. Mas com um pesar! Pois são pouquíssimas pessoas, esses remanescentes que possam passar sua cultura, sabedoria, histórias, tradições e costumes que adquiriram dos seus ancestrais. Esses remanescentes são o elo entre o século XIX e o século XX, que adentram ao século XXI.
Sendo
pobres e iletrados em sua maioria, moradores da periferia, das periferias do
mundo colonial, quase toda a história destes agricultores-pescadores humildes
não foi registrada, nem pôs eles, nem por seus dominantes. E justamente aí
reside a grande dificuldade e o grande desafio de se pretende fazer a história
dos vencidos, dos povos sem história.
Com o objetivo de recuperar a identidade do
caiçara morador da Região Sul do Município de Ubatuba, do Bairro de Maranduba, Litoral
Norte Paulista, hoje concentrados no Sertão da Quina, investigar sua cultura e
modo de vida percebendo as transformações que se processaram nas práticas
sociais. Como aponta Roncayolo “a identidade vem da cultura mais do que da
estrita localização física.” e ressalta “mais que percebido o território é
aprendido pelo indivíduo e construído por práticas e crenças que são de
natureza social”.
Das primeiras casas de pau-a-pique com
uma família tradicional caiçara do Bairro Sertão de Maranduba (hoje Sertão da
Quina): Acervo particular.
O Bairro Sertão da Quina: “Por volta de 1850, algumas
famílias, saindo das proximidades da Fazenda Lagoinha*, adentraram nesta imensa
várzea. Havia resquícios de moradias Vieram para buscar a tão solicitada casca
para uso medicamentoso, de uma árvore a qual daria o ponto de referência para a
localização do lugar, a árvore a qual se fala é a quina. Era fácil a
localização, tratava-se de uma porção de terra, uma pequena montanha onde havia
a maior quantidade de quina por metro conhecido nas redondezas. O caiçara de
Maranduba e do Sertão da Quina desde suas origens sempre foram um grupo só,
mesmas famílias caiçaras, tanto do sertão quanto da praia. Seguiam dois
calendários, um o da natureza onde era tempo só de pesca ou o tempo de plantio,
coleta e caça; outro calendário o da igreja, seguindo sua fé, festas e
costumes”. Ezequiel dos Santos 37 anos, pesquisador da cultura do povo caiçara
dos Bairros de Sertão da Quina e Maranduba. Depoimento em 09 Out. 2009.
Fazenda da Lagoinha, a 25 km do centro
de Ubatuba, onde pode se admirar as colunas de pedras na beira da Rodovia Rio
Santos (SP 55, Km 73) e a 500 metros da Rodovia a Ruína da Fábrica de Vidros. Marcam
inícios da construção da primeira fabrica de vidros do Brasil, da fazenda do
Engenho Bom Retiro, construída no final do século XVII, para o engarrafamento
de cachaça. Mas, como o governo de Portugal exigia que as garrafas fossem
importadas, não permitiu a conclusão do projeto. Além de fabricar a cachaça e o
açúcar mascavo, cultivava o café. Seu processo de tombamento foi concluído em
1986.
Com a construção da primeira capela em
1917 e a chegada dos padres e mais pessoas, se deram o inicio do povoado. Os
caiçaras plantavam, caçavam e pescavam no rio grande de Maranduba, no rio a
gente fazia barulho na água e tinha tanto robalo, bagre, acará e lambari que
era só bater a fisga (lança) que pegava na certa.
Tinha também nossos ranchos com canoas na
praia de Maranduba, já desde a época de nosso pai e avós. Benedito Manoel dos Santos 80 anos. Depoimento
feito em sua residência no Bairro Sertão da Quina, 08 out. 2009. E continua o
seu Benedito, a rede de pesca era feito à mão, com tiras de imbira casca de
árvore rascadas em tiras para fazer cordas e tecia a rede com barbante número
um a nove, a gente não tinha material certo, mas dava um jeito e a rede ficava
muito boa! A gente pegava tanto peixe, que ficava esperando aparecer gente na
praia para dar o peixe.
Usavam a madeira da arvore Quina existia
em ambulância, para construir pontes, casas e estradas; com o passar do tempo
se descobriu a Quina como matéria de uso farmacêutico e curtumes, usando além
da madeira, as folhas e as cascas que eram extraídas. Com a extração
descriminada das arvores, só existem uma ou outra arvore de quina. Benedito nos informou que existe “uns pé de quina só lá
no mato, lá em cima,Serra.
Quina: Árvore baixa de tronco tortuoso
e copa globosa, com inflorescência rósea em panícula e sendo seu fruto cápsula
deiscente com sementes aladas membranosas, é planta bastante ornamental, sendo
usada em paisagismo. Nativa do Brasil, de partes úmidas da Amazônia e Mata
Atlântica, ocorre em várzeas aluviais da floresta pluvial e da latifoliada
semidecídua, em várias regiões do país. Explorada intensamente por seu uso
medicinal, é hoje árvore rara. É o que ocorreu na comunidade caiçara de
Maranduba/Sertão da Quina, foi explorada sem um acompanhamento técnico. Nome
Científico: Strychnos pseudo-quina.
Primeira Capela do Bairro Sertão da
Quina Acervo particular
Hoje o bairro sobrevive do ecoturismo
(por suas belíssimas cachoeiras e Mata Atlântica, ainda exuberante), comércio,
pousadas, e principalmente o artesanato caiçara. As mãos de obra usada ou
oferecida às necessidades de Maranduba e Sertão da Quina são autônomas ou
diaristas, com poucas carteiras de trabalho registradas. Infraestrutura com
posto de saúde, energia elétrica (“a luz chegou no Sertão da Quina em 1963 e a água os
moradores tiranvam da Serra ou dos rios aqui mesmo. Depoimento feito no Bairro
Sertão da Quina, 08 out. 2009e três escolas, sendo uma delas de Ensino
Fundamental II e Médio. Ainda não tem saneamento, mesmo sendo a Região Sul de
Ubatuba densamente povoada e com um turismo de massa agressivo, prejudicando
totalmente o meio ambiente e consecutivamente a população.
Como já mencionado, nas ultimas
décadas, o caiçara vem sofrendo um processo de transformação, suas terras
sofreram a ação da especulação imobiliária resultante do processo desenfreado
de urbanização associado ao turismo de massa. Ana Alessandri Carlos Fani
observa que “O espaço produzido do turismo perde o sentido, é o presente sem
espessura, quer dizer, sem história, sem identidade; neste sentido é o espaço
do vazio”. (FANI, 1999. P. 28). Verifica-se também a ação por parte dos
governos Federal e Estadual ao criar unidades de conservação ambiental, no caso
da região estudada Maranduba/Sertão da Quina, pelo Parque Estadual da Serra do
Mar e seus núcleos, não se preocuparam em “ouvir os caiçaras” que estão á
várias gerações vivendo na região, tais situações causaram muitas tensões
sociais. Vale ressaltar que o caiçara
proprietário tem um forte elo com os seus recursos naturais, enraizado com seus
valores matérias e imateriais.
Recordar a própria vida é fundamental
para nosso sentimento de identidade. (THOMPSON, 1992, P 208). Nossa opção por
trabalhar com a história oral justifica-se também porque acreditamos que cada
comunidade caiçara usa, no dia-a-dia, um código de linguagem comum a todos.
Todavia, em cada bairro caiçara, os moradores exercem seu falar particular com
termos e expressão que marcam a identidade de cada agrupamento. O falar
arrastado, calmo e pausado é próprio do caiçara de Ubatuba.
Vamos buscar a oralidade e deixar o
caiçara falar, pois enquanto
os historiadores estudam os atores da história à distância, a caracterização
que fazem de suas vidas, opiniões e ações sempre estarão sujeita a ser
descrições defeituosas, projeções da experiência e da imaginação do próprio
historiador: uma forma erudita de ficção. A evidência oral, transformando os
"objetos" de estudo em "sujeitos", contribui para uma
história que não só é mais rica, mais viva e mais comovente, mas também mais
verdadeira.
A popular moradora caiçara e Diretora
da Escola Municipal de Ensino Infantil e Básico do 1º ao 5º ano nos relata: Hoje o Sertão da Quina está
muito grande e populoso, mais ou menos 4 mil e quinhentas pessoas*, reflexos da
chegada do migrante com a abertura da Rodovia, especulação imobiliária e
o turismo, nos caiçaras somos a minoria. Só aqui na minha escola estudam 300
alunos. Faço um trabalho de resgate da história caiçara do Sertão da Quina, com
sua memória, arte e cultura. Os alunos recebem um relatório com uma pergunta
específica relacionado ao passado do bairro pesquisa de campo, por exemplo,
aqui tem um relatório. Nativa Salete dos Santo Heitor 51 anos. Depoimento em 08
out. 2009. Carinhosamente conhecida como Tibinha.
A Diretora da Escola mostrou-me um relatório
que passou a vários alunos com duas perguntas: Como era o Sertão da Quina a anos atrás? E como era a
alimentação, transporte, moradia, comércio, religião, saúde e trabalho? Verifiquei
no total de cinco, dá para perceber que todos os entrevistados eram filhos de
caiçaras de mesma região, Maranduba e Sertão da Quina.
Com esses relatórios dá a se entender
que a Diretora da Escola faz uma pesquisa usando História Oral, com essa
postura ela entra no mérito “projeto em grupo” que o historiador inglês Paul
Thompson descreve em seu livro. A Voz do Passado 1992, p.31
O projeto em grupo possui algumas
características peculiares. Em vez da atmosfera de competição comum na
educação, ele requer um espírito de cooperação intelectual. A leitura
solitária, os exames e as aulas expositivas cedem lugar à pesquisa histórica em
colaboração. A investigação em conjunto também leva professores e estudantes a
um relacionamento muito mais íntimo, menos hierárquico, criando muito mais
oportunidade de um contato informal entre eles. Sua dependência passa a ser recíproca.
Sabendo ela de minhas intenções em registrar a
sua memória (evidência oral), por ser uma caiçara legítima, filha e neta de
caiçaras pescadores/agricultores, onde seu pai acaba de falecer no dia 02 de
ago 2009 com 87 anos; passa a reviver em sua memória a seguinte história de uma
amiga francesa, enfermeira que veio ao Sertão da Quina prestar serviços
comunitários. E a Diretora me mostra um documento dizendo, “Tenho aqui parte de
um relatório da enfermeira”.
Aqui está o relatório copiado do original
Bairro do Sertão da Quina – 24 de
fevereiro a 15 de maio de 1.966
O Sertão da Quina é um lugarejo perdido no
meio de bananais e está situado a aproximadamente 4 km da estrada litorânea
entre Caraguatatuba e Ubatuba. A via de acesso ao local é um caminho de terra
quase impraticável em dias de chuva, em razão do riacho que transborda e fecha
o caminho.
A capela, a escola, o posto médico e
sete casas formam o centro do vilarejo, as outras estão espalhadas na roça e no
mato. Elas se localizam sempre perto de um rio (riacho), pois não há água
canalizada nem tampouco luz elétrica.
O lugar é maravilhoso, uma vegetação
surpreendente, mas infelizmente aí se encontra a miséria (pobreza) da vida
primitiva (a falta de infraestrutura da vida primitiva), um povo que sofre em
silêncio, mas que está tão perto de Deus.
Fique em contato com a natureza, e
você estará em contato com Deus.
Objetivo da estadia:
Ajudar uma jovem do lugar (Isabel) a
concretizar a aprendizagem que ela recebeu na A.L.A. (Assistência ao Litoral
D’Anchieta).
Organizar um posto de saúde na casa
construída anteriormente com a ajuda das Irmãs, para servir como Centro Social.
II – Organização do Posto de Saúde:
A inauguração do “sub-posto de Emergência”
ocorreu no dia 23 de abril de 1966 na presença da Irmã Petrina, Irmã Maria do
Belém, Irmã Sylvia Maria e Irmã Hercília; do frei Vitório (vigário de Ubatuba,
do Prefeito Matarazzo e de outras personalidades, entre as quais o Senhor
Morgado, Presidente da Câmara dos vereadores e do farmacêutico (Seu Filinho)).
A casa que abriga o Posto de Saúde compõe-se
de uma única sala (quatro paredes e um teto), dividida em duas por uma cortina
(quatro panos dados pela ALA).
A parte da frente serve de sala de
espera (um banco) e da sala de curativos com o seguinte equipamento: um filtro
de água, uma mesa, duas cadeiras, um banquinho, um armário de remédios, um
balcão e uma pia.
A parte do fundo serve para as
consultas e tem o seguinte mobiliário: uma cama, uma mesa para o médico e outra
para exames e uma cadeira.
A mesa de exames foi dada pelo Doutor Lucas
(médico-chefe do hospital de Ubatuba); a pia doada pelo Dr. Fragas; o filtro e
outros móveis foram fornecidos pelas irmãs da A.L.A. de Ubatuba.
O cronograma do posto está organizado da
seguinte maneira:
uma hora de atendimento pela manhã;
uma hora de atendimento após o almoço (à
tarde);
duas horas de visita às famílias à tarde mais
atendimento a domicílio dia e noite segundo as solicitações e necessidades.
No início, o Dr. Fragas (encarregado das
praias da região de Ubatuba) comparece todas as quintas-feiras pela manhã e dar
uma hora de consulta.
Principais doenças encontradas:
1- 100% de verminose que provoca:
a) Anemia;
b) Fortes dores de barriga;
c) Diarréia;
d) Vômitos.
2- Feridas infeccionadas (picadas de
borrachudos).
3- Bronquites e gripes.
Cuidados prestados:
a) 250 visitas domiciliares (aí
computadas as visitas do recenseamento)
b) 400 curativos
c) 150 injeções, das quais 6 (seis)
intravenosas.
III – Recenseamento:
Casas: 92 casas, sendo: 88 de
pau-a-pique.
População: 512 pessoas, sendo:
31 de 0 a 2 anos;
87 de 2 a 7 anos;
135 de 7 a 14 anos;
127 mulheres;
132 homens.
Alfabetização:
98 crianças a partir de 7 anos (este
ano 3 classes) vão à escola
30 já concluíram o 4º ano (fim do
primário)
118 analfabetos
A escola existe há aproximadamente 10
anos.
Salário: Cr$ 50.000,00 por mês, por
trabalhador.
Retirada média por família dependendo
do número de trabalhadores na família: Cr$ 73.000,00.
NB. Isto é possível quando o tempo
está bom e quando não há doenças.
Profissões encontradas:
Saúde (combate aos insetos)... quatro
Funcionários municipais... quatro
Todos os demais trabalhadores são
lavradores (trabalho nas plantações).
IV- Religião:
A população é 100% católica.
O vigário de Ubatuba, Frei Vitório,
vem aproximadamente a cada dois meses para celebrar a missa e fazer confissões.
Não há presença efetiva na Capela.
O povo é muito devoto e se reúne todas as
noites na Capela para uma prece comunitária, (há necessidade de uma pequena
renovação litúrgica).
Diferentes
movimentos:
Cruzada Eucarística
Filhas de Maria: 28 membros
Congregação Mariana (masculina): 60 membros
- Apostolado do Sagrado Coração
- Confraria de São Francisco de Assis
- Confraria de São José
Conferência de São Vicente de Paulo:
dois ramos: N.S. de Fátima e São Francisco de Paulo.
Catequese:
O catecismo é ensinado às crianças por Isabel
e dois rapazes do lugar, aos domingos pela manhã.
Culto: Todos os domingos à noite, têm
lugar um culto dirigido por um rapaz que vai prepará-lo no sábado com a Irmã
Hercília na A.L.A. de Ubatuba.
Batismo, Primeiras Comunhões, Crisma,
Casamentos são celebrados no lugar.
Higiene:
Seis casas possuem filtros de água.
Nas outras casas bebe-se água
diretamente do riacho. Um outro riacho serve para lavar a roupa, os legumes e
para o banho.
Quinze casas possuem uma fossa. Para
as outras, os banheiros encontram-se... atrás das bananeiras.
Uma campanha para utilização de filtros e de
fossas está organizada pela A.L.A., mas caminha vagarosamente devido à falta de
recursos financeiros para a compra do material.”
Foto: acervo particular de Nativa Salete dos
Santos Heitor
INAUGURAÇÃO DO PRIMEIRO POSTO DE SAÚDE
Obs.A enfermeira Claude Perreau está
de vestido branco com detalhes amarelos e o prefeito Ciccillo Matarazzo lado
direito de camisa azul claro e óculos, posicionado atrás das crianças.
Pelo relatório aqui exposto, dá para
perceber que a população do Bairro Sertão da Quina no ano da presença da
enfermeira (1966), ainda apresentava somente como população original, o
caiçara. Mas já com uma grande concentração (512 pessoas), reflexos da abertura
da Rodovia Estadual que tinham empurrados os moradores das praias para o
Sertão. Estavam próximos da chegada da explosão populacional através do turismo
de massa e imobiliário. Só faltava a interligação da BR 101 do Norte de Ubatuba
com a Região Sul.
Artesanato, os remanescentes caiçaras
de Maranduba/Sertão da Quina sempre fizeram seus trabalhos de artesanato
visando o uso para suas necessidades diárias. Hoje em dia o artesanato é
voltado para um complemento de renda, vendem seus trabalhos para turistas e
lojistas. A matéria prima usada é basicamente o que a natureza oferece taquara,
bambu, taquarussu, taboa, junco, palha (fibra) do tronco da bananeira, folhas
de coqueiro, flecha da planta ubá (cana brava) etc. e madeira de pequeno porte
para gamelas, miniaturas de figuras de animais, aves, peixes etc.
O balaio, samburá, tipiti, peneira,
esteira e rede (de dormir) eram de uso diário e essencial a sobrevivência do
caiçara, pelo seu isolamento e o próprio atraso do país em relação a produtos
industrializados.
Pequeno galpão, deposito de produtos
de artesanato ou de primeira necessidade, confeccionados pelo caiçara Benedito
Manoel dos Santos 80 anos, como peneiras, balaio, jacá e gaiola feita de
ubá.
A pesquisa de história oral pode
também levar a própria exposição a se aproximar mais do original histórico. A
disposição de objetos por época é substituída pela reconstrução de um aposento
verdadeiro, com, por exemplo, ferramentas e aparas e cestos semifabricados
deixados por ali como se o artesão ainda os estivesse usando.
Podemos considerar como outra arte, a
impressionante construção de suas casas, a casa caiçara, feita de pau-a-pique,
parede feita de uma trama de ripas amarradas com cipós, revestida com barro;
taipa. Telhado também feito com uma trama de ripas mais grossas e cobertas com
folhas de palmeiras, portas e janelas feitas de madeiras lavradas a machado ou
encho. Todo o material empregado na construção era adquirido nos arredores.
Interessante observarmos que a casa caiçara é semelhante à casa caipira no Vale
do Paraíba e Região, só mudando o material empregado no telhado, que na casa
caipira usa se o sapé.
Em uma demonstração em resgatar a cultura
caiçara de Maranduba e Sertão da Quina, na Escola Municipal de Ensino Infantil
e Básico do 1º ao 5º ano, Nativa Fernandes Faria, foi construída uma casa
caiçara típica, em detalhes:
Um dos construtores dessa casa caiçara
(museu) contou como foi importante para ele relembrar os bons tempos de
mutirão*, quando participava com seu pai e avô das construções, das limpezas de
roça e plantio, “Tinha treze anos quando meu pai morreu e continuei a vida de
caiçara na pesca, plantação e ajudando os outros em mutirão.
O dono dava a
comida e material, a gente o trabalho e ferramenta. Fiz artesanato, gamela,
pilão, carrinhos em madeira, balaios e cestas em taquara”. Depoimento de José Pedro
dos Santos (Zé Pedro) 70 anos, 20 Out. 2009.
*Mutirão: Entre trabalhadores do
campo, auxílio gratuito por ocasião do plantio ou da colheita. Serviço coletivo
e gratuito para a execução de um trabalho que beneficie a comunidade. (Houaiss,
2004).





