Sidney Chalhoub - Professor da UNCAMP
Autor de 'Machado de Assis Historiador'
Por essas e outras, juro que não
acreditei quando li que o nosso MEC-Ministério de Educação e Cultura agregou
valores de altas verbas públicas para que um investimento de peso financeiro
viesse a produzir lítero-editorialmente trezentos mil exemplares de uma
"edição reformatada" (curto e grosso, prosa pra boi dormir) do grande
livro "Alienista" de Machado de Assis, ideia, obra, de uma, ponhamos,
escritora (escritora quem mesmo?) jovem e contemporânea. Não acredito. Sabe
aquele mote de um engraçado burrinho popularesco da mídia de humor
dizendo/repetindo "Não Acredito/Não Acredito?" Pois me senti assim...
o próprio. Não se aprende a ler Machado de Assis lendo Paulo Coelho, lendo ou
sendo apenas leitor de apenas Paulo Coelho... para dizer o mínimo...
Machado de Assis é o melhor escritor
brasileiro de todos os tempos. A qualidade literária, a lucidez fora de série e
o talento foram confirmados com o passar dos anos. Ler Machado de Assis é ter
orgulho de ser brasileiro. De origem humilde, paulatinamente foi criando o seu
magnífico mundo letral espetacular, fundou a Academia de Letras, marcou a arte
lítero-cultural brasileiríssima com a sua essência de vida e também com o
próprio registro magistral de sua época, de seu tempo, incluindo as agruras
socioculturais do período. Escrevia como quem punha a alma do Brasil para
madurar, dando testemunho de si nos despojos, registrando com sapiência em
tantos livros importantes o seu valor, a sua cultura, fazendo com que, cem anos
depois, ainda o estejamos estudando, tenhamos orgulho dele, pois nunca mais
haverá outro como Machado de Assis, se assim podemos dizer, o Número Um.
No Brasil é lido entusiasticamente como
nunca, seus textos caem em provas e vestibulares oficiais de renome, jovens
universitários de gabarito descobrem e estudam a sua maestria com as palavras,
a construção dos quadros narrativos, o estilo todo peculiar e inconfundível.
Fora do Brasil é tido como um gênio, a altura dos grandes nomes da literatura
mundial, até mesmo muitas vezes sendo cobrado porque não teria sido indicado
para o Prêmio Nobel de Literatura. Romances que passam a limpo as mudanças que
vivia o Brasil; tons irônicos, enfoques humanitários, sempre recuperando
situações nodais, moldando palavras e criticando os contrastes sociais de sua
época e outras, império, escravatura, sociedade. Documentou, historiou,
humorizou, decodificou o meio hipócrita e mostrou toda a sua verve e o depuro
no oficio do qual era mestre. Técnica narrativa cativadora, surpreendente
linguagem e abstração portentosa que fundava ali, a graceja cultural emergente
no seu mais alto estilo e qualidade, revelando a tez chão de sua carreira até
hoje inquestionável.
A importância de Machado de Assis cem
anos depois de sua morte é a própria prova de que ele foi muito além de seu
tempo, apesar das agruras do que a vida lhe impôs, e que talvez por isso mesmo
também em seu caráter fizeram-no forte, valorando sua ética como registro de um
povo, de um tempo, de um lugar. Sem ele, a literatura brasileira não seria a
mesma. A sua importância até hoje é o testemunho do que ele foi pioneiro na
qualidade histórica de sua área, insubstituível e o próprio tempo, como juiz
soberano o valora sobremaneira, colocando-o no patamar dos melhores do mundo.
Marco histórico, portanto, Machado de
Assis tornou-se referencial para autores que o sucederam no ramo literário,
criou linhagem qualitativa, fez escola, é comparado e está acima de todos,
sendo citado com probidade e garbo, servindo como acervo de pesquisas
históricas acadêmicas até, pertinente ao seu momento literal (costumes,
figurinos, crendices, visões do império, da escravatura, da abolição, da república),
além de dar sustentação para teses sociológicas e ainda ser considerado o
fundador do melhor quilate da arte narrativa brasileira. Quando queremos citar
um cidadão humilde que brilhantemente venceu na vida com arrojo, o primeiro
nome lembrado é Machado de Assis. A sua importância é que seus livros vendem,
sua técnica narrativa densa atrai, os seus personagens cativam (como Capitu e
Bentinho, por exemplo) e ainda, com profundidade, permite múltiplos
entendimentos, fazendo-no um personagem de si mesmo, um mito, portanto.
Pois agora, acredite se quiser, a ideia
de jerico, por assim dizer, desde logo contestando-a, nasceu depois que
programa Ler é Fundamental, criado pela escritora Patrícia Engel Secco (quem
mesmo?), aventou de querer romper a tal barreira que separa as pessoas do maior
escritor brasileiro. Separa? "Muita gente nunca ouvir falar dele. O que é
uma lástima. Esperamos que, com esse projeto, mas pessoas se disponham a ler o
original". Além de ser distribuído gratuitamente em versão impressa, é
possível baixar a versão adaptada pela internet. Onde já se viu isso? Baixaria.
Para matar o berne do boi vamos matar o boi? Sejamos lúcidos. Não atentemos
contra o nosso maior patrimônio.
Para facilitar a leitura... ora,
vejamos, teríamos que investir mais em educação, cultura, bibliotecas, meios de
comunicação com nível superior, e não uma mídia abutre, não suplementos de
cultura ter mais modismos ou link fashion do que arte propriamente dita. O
Brasil tem mais igrejas, shoppings e farmácias do que tem bibliotecas públicas.
Isso quer dizer alguma coisa? Tem mais novela chinfrim de baixarias
anti-famílias do que investimento pesado de obras clássicas de nossa literatura
no teatro, no cinema, na televisão. Tem mais canais de tevês propagando o ódio
do que transparência e ética humanitária. É como querer que o leitor de língua
inglesa compreenda Shakespeare a partir de resumos popularescos e
água-com-açúcar de sua grande obra. Já pensou? O bruxo do Cosme Velho,
certamente que regurgita no túmulo. Onde já se viu isso, tem cabimento? Melhor
estar morto do que saber uma asneira historial dessas. Memórias Póstumas de
Machado de Assis a parte...
Pois, alegam, os que não têm nada para
fazer/pensar, que a linguagem é antiga, desusada (linguagem culta) etc. e
tal, as desculpas do arco da velha. Ora, se mal ou bem comparando, Jose
Saramago é, no melhor estilo e do nível de Machado de Assis, sendo culto e
denso, por assim dizer, e compreendido, valorado e atual, Nobel, porque seria
diferente com o autor de O Alienista, Dom Casmurro, etc? Foi a mesma historia
quando começaram a fazer historias em quadrinhos ilustrando textos consagrados
e historiais de clássicos brasileiros, a imagem que o autor criava em sua
cabeça, de acordo com a sua cultura, tendo em vista os textos subjetivos dos
autores ilustrados, e não funcionou a tal ótima ideia, porque na pratica não
casou o texto com a narrativa, com as belas imagens, não chegou, o projeto,
portanto, a levar mais gente a ler nossos clássicos, de Jose de Alencar a
Machado de Assis mesmo, em suas contações.
Por essas e outras, querer que o leitor
seja cativado para admirar, ler e gostar de Machado de Assis, a partir de
linguagem comum adaptada ao modo de dizer atual, estilo
"paulocoelhando", é um chiste, é chulo, de mau gosto, um abuso,
inadmissível, quase um inderoco público. Claro, se não podemos fazer Paulo
Coelho ser de alto nível litero-cultural como Machado de Assis, vamos criar
fieis leitores de Sidney Shelton e olhe lá. Mas Machado de Assis no estilo de
Paulo Coelho é uma vergonha, um acinte. Vou sistematicamente criticar o MEC e
protestar contra o alienado (ou, no caso, a alienada) que quer adaptar o
Alienista. Vão ler Shapeskeare adaptado ao estilo Sidney Shelton? Pois é.
"'Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis', diz a
escritora Patrícia Secco. 'Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não
entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.' Você
acredita no que está lendo, isso? Não acredito... não acredito... não
acredito...
Rildo Polycarpo Oliveira no Facebook
diz: "É preciso lembrar que um texto literário não se reduz à sua forma e
que o todo que apenas metodologicamente discernimos como forma e conteúdo não é
dissociável, de modo que transgredir a forma é no melhor dos casos criar uma
outra obra, mas nesse caso implica numa adulteração, numa falsificação. Desde
onde vejo, não vale muito a intenção de dar um feitio atual e juvenil à obra de
Machado, porque é antes importante que os leitores se liberem do fetiche do
presente, até mesmo do fetiche da própria juventude."
Lendo e comparando Machado de Assis e
José Saramago, obras datadas, de alto nível, entre as melhores do mundo, de
todos os tempos, medidas as proporções, ainda estão no mais alto conceito
litero-cultural e que o leitor que, se quer se inteirar, se quer sabê-los, que
leia devagar, aos poucos, curtindo, pesquisando palavras, consultando
dicionários se for o caso, aprendendo, evoluindo, pensando, crescendo, tentando
paulatinamente entrar de cabeça na obra e estilo de um e de outro, não querendo
papagaiar uma linguagem boba e jeca para destronar nossos melhores autores,
mitos, que não são meros best-sellers. Regras do mercado? Machado de
Assis mutilado? Tentativa de tornar infanto-juvenil o nosso maior escritor? O
país da piada pronta poderia muito bem passar sem essa. Agora sim, temos motivo
e razão para irmos para a rua passatear contra essa barbaridade. "Fora
Machado de Assim Adaptado Para os Subcretinos, os Sem Cérebro!"
Silas Correa Leite - Escritor, Professor, Jornalista Comunitário, Pós-graduado em Literatura na Comunicação, ECA-USP)
Autor de GOTO, A Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé,
Editora www.clubedeautores.com.br
Silas Correa Leite - Escritor, Professor, Jornalista Comunitário, Pós-graduado em Literatura na Comunicação, ECA-USP)
Autor de GOTO, A Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé,
Editora www.clubedeautores.com.br
Fonte:http://port.pravda.ru/sociedade/cultura/29-04-2017/43153-machado_de_assis-0/#
