. As mudanças que aconteceram transformando a vida caiçara e atraindo
novos moradores, principalmente a especulação imobiliária, fazendo assim com
que as figuras da cultura local, como: o pescador/agricultor, as benzedeiras,
parteiras, os artesões, os foliões, o cantador de festas; fossem perdendo suas
origens saindo então de cena.
Dedicatória
ao Futuro
“Ninguém
exige de nós atos sublimes, de coragem e abnegação; mas é nosso dever absoluto
não juntarmos aos embaraços já existentes outros que tornem ainda mais difícil
a árdua tarefa de quem, no futuro, tiver forças para vencê-la” (MISSÕES RONDON, 1916: 130-131).
Na maior
parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com
imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. “A Memória não é sonho, é
trabalho”
(BOSI, 1994, P. 55).
INTRODUÇÃO
Esse trabalho tem como objetivo resgatar a identidade
cultural do caiçara do Município de Ubatuba, através de análise de
depoimentos. E História oral é a teoria
básica e fundamental de nossa pesquisa! Segundo o especialista em História Oral
o inglês Paul Thompson:
A história oral é uma história construída em torno de
pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu
campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a
maioria desconhecida do povo. Estimula professores e alunos a se tornarem
companheiros de trabalho. Traz a história para dentro da comunidade e extrai a
história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados, e especialmente
os idosos, a conquistar dignidade e autoconfiança. Propicia o contato – e,
pois, a compreensão – entre classes sociais e entre gerações. E para cada um
dos historiadores e outros que partilhem das mesmas intenções, ela pode dar um
sentimento de pertencer a determinado seres humanos mais completos.
Paralelamente, a história oral propõe um desafio aos mitos consagrados da história,
ao juízo autoritário inerente a sua tradição. E oferece os meios para uma
transformação radical do sentido social da história. (THOMPSON, 1992, P. 44).
Por ser uma
pesquisa regional, visando os aspectos culturais (Este tema sensibilizou os
integrantes do grupo, uma vez que vivem na região que será investigada e podem
sentir os efeitos produzidos), há uma identificação e afinidade com o local,
sem, no entanto abrir mão do rigor teórico e metodológico nas pesquisas
realizadas. A História local nos trás uma aproximação imediata do passado, em
uma ligação direta com o presente. Isso nos remete aos dizeres de outro
historiador inglês Rafael Samuel, História Local.
A história local requer um tipo de conhecimento diferente
daquele focalizado no alto nível de desenvolvimento nacional e dá ao
pesquisador uma ideia muito mais imediata do passado. Ele a encontra dobrando a
esquina e descendo a rua. Ele pode ouvir os seus ecos no mercado, ler o seu
grafite nas paredes, seguir suas pegadas nos campos. A categoria abstrata de
classe social, ao invés de serem pressupostas, tem de ser traduzidas em
diferenças ocupacionais e trajetórias de vidas individuais; o impacto da
mudança tem de ser medido por suas consequências para certos domicílios. Os
materiais básicos do processo histórico devem ser construídos de quaisquer
matérias que estejam à disposição no local ou a estrutura não se manterá. (SAMUEL, 1989, p.220).
E
completando o ciclo de teorias não deixamos de incluir a História Social, onde
ali se faz o complemento de cada individuo em harmonia com a sociedade; como
sustenta o também historiador inglês Eric Hobsbawm (1998, p.186), “não há povo
sem história ou que possa ser compreendido sem ela”, acrescentando que a
história “não pode ser entendida exceto por meio das interseções de diferentes
tipos de organização social, cada um modificado por interação com os demais”.
O litoral
norte do Estado de São Paulo é constituído por quatro cidades: Ilhabela, São
Sebastião, Caraguatatuba e Ubatuba. Esta pesquisa restringe-se aos bairros de
Maranduba e Sertão da Quina com seus remanescentes caiçaras vivendo hoje
isolados e descarecterizados no bairro Sertão da Quina, região sul de Ubatuba.
Ubatuba é um Município comprimido entre o Oceano Atlântico, a Serra do Mar,
limitado ao sul com Caraguatatuba e ao norte com Rio de Janeiro, hoje conta com
mais de 85 mil habitantes, oriundos de diversas cidades de todo o País,
trazendo com eles diferentes culturas, uma linguagem e costumes próprio de cada
região.
A aproximadamente umas quatro décadas esse Município
ainda era paradisíaco, habitado por caiçaras, que moravam à beira-mar em seus
casebres de pau-a-pique, onde tiravam seus sustentos dessa água e dessa terra,
da qual eles mesmos pescavam e cultivavam suas plantações (agricultura familiar
de subsistência) de mandioca, banana, milho, café, cana, hortaliças e pequenos
animais. Os caiçaras tinham uma cultura riquíssima baseada em crenças
religiosas expressadas na linguagem, na música e também no artesanato,
construiam suas proprias casas, ranchos, canoas e montavam equipamentos para a
feitura de farinha de mandioca e alguns utensílios domésticos. Seus costumes
eram passados oralmente, de pai para filho e a narração era muito rica,
podia-se notar a criação de várias histórias, músicas, orações etc. Com uma
variedade imensa de palavras, com temas voltados ao seu meio.
Com a chegada da rodovia, o turismo de massa e a
especulação imobiliária, o caiçara foi expulso, arrancado de seu habitat. Sendo
deslocado para outros espaços, primeiro para a periferia e sertões ou para regiões como Santos, Vale do Paraiba,
Grande São Paulo e outras cidades à procura de emprego ou uma vida melhor. Com
isso a conversa à beira-mar, durante a “feitura das redes”, ao chegar da
pescaria, as mulheres caiçaras a beira do forno na “feitura de farinha de
mandioca”, durante as rezas ou até mesmo ao anoitecer, quando contavam
histórias de pescarias e caça para os filhos e netos, foi extinguindo. Essa
cultura oral está quase acabando, à medida que outras pessoas foram chegando
com outras culturas e essas foram incorporando-se a linguagem local.
A ditadura militar inicia em 1964, estendendo-se pelas
décadas de 1970 e 1980, “milagre econômico!”, falsa ideia de progresso, dá se o
inicio da BR 101, momento esse que se acelera o desestruturação das formas de
cultura caiçara locais, já descarecterizada desde o final da década de 1950 e
inicio de 1960 com as interligações terrestres feitas pelo poder estadual. Hoje
os remanescentes caiçaras de Maranduba e Sertão da Quina os poucos que ainda
resistem, estão concentrados no Bairro Sertão da Quina.
Como observa Rizzo
e Barreto:
Além desses motivos podemos afirmar também que junto com
a construção da Br 101 que ligou Ubatuba ao fluxo de turistas, à especulação
mobiliária e a outros fatos já citados, em 31 de dezembro de 1970 foi ao ar o
primeiro Jornal Nacional editado pela Rede Globo. “Nos primeiros tempos a Rede
Globo não se preocupou com a linguagem nacional a modo da Rádio Nacional
impunha o falar típico do Rio de Janeiro. Todos os seus telespectadores ouviam
a locução clara e límpida dos seus apresentadores e a predominância da presença
de repórteres com o linguajar arrastado na apresentação das matérias. Não cabe
aqui a crítica pela atitude.“ Temos que reconhecer que durante muitos anos de
nossa história o Brasil nunca soube o tamanho e
as dimensões do Brasil. (RIZZO e BARRETO, 2003, P. 7)
