Cultura etimologia no sentido de plantar, cultivar ação ou efeito de
cultivar a terra, criação de certos animais.
Cultura e criação de subsistência: O cultivo da mandioca, do arroz, do
feijão, do café e, algumas vezes, do milho; é a atividade que, ao longo do
tempo foi exercida paralelamente às atividades da pesca. O quintal caiçara: nos
terreiros ou quintais das casas dos caiçaras, encontramos até hoje em forma de
pomar,com árvores frutíferas de bananeiras, laranjeiras, goiabeiras,
limoeiros, carambolas, pitangas, maracujás, araçás, mamoeiros, abricós, jacas e
outras. Além das verduras tradicionais, tem espalhados por todo canto, as ervas
(cheiros verdes) como salsinha, cebolinha em folha, coentro, alfavaca, hortelã,
pimentas e outros, para os temperos a serem usados no preparo do peixe e
carnes. Sem esquecer o principal, as ervas medicinais e criação de pequenos
animais como galinhas, patos, porcos e o complemento alimentar através da carne
de caça.
Caiçara um povo acostumada a uma vida simples e próxima da natureza,
comendo o que plantava o que pescava ou caçava. Comida: “No nosso tempo, a
alimentação era pura: era tudo colhido da roça. Era só peixe, café de cana e
coisas naturais que tínhamos na roça. Por isso, até hoje não tenho nenhum
remedinho de médico no meu corpo”. Benedita de Oliveira Santos, 74 anos.
Receita caiçara, virado de banana:
Banana nanica ou branca amassada. Coloca-se na panela, mexendo até
ficar um creme homogêneo, acrescenta-se farinha de mandioca, mexa até virar uma
farofa. Se quiser pode acrescentar-se farinha de milho, mexa até virar uma
farofa. Se necessário acrescente açúcar”. Depoimento de Nativa Salete dos
Santos Heitor 51 anos.Carinhosamente
conhecida como a Diretora Tibinha.
Foto: Homens exibindo a caça do dia. Acervo particular de Ezequiel dos Santos*. Sertão da Quina (antigo Sertão de Maranduba).
Ezequiel dos Santos nascido e criado na zona rural do Município de
Ubatuba. Pesquisador das transformações sociais ocorridas com a construção das
rodovias registra e coletas dados das coisas caiçaras, relacionados ao Sertão
da Quina e Maranduba. Com um tom de voz característico de um caiçara do Litoral
de Ubatuba: “Sou filho de caiçara e trabalho em resgatar a cultura do Sertão.
Já ajudei com minhas pesquisas cinco mestrados e tenho a maior satisfação em
ajudar as pessoas que estão desenvolvendo algum trabalho onde envolve o caiçara”.
Depoimento de Ezequiel dos Santos 37 anos, 15 Out. 2009.
Nessas últimas décadas a vida desse “típico homem do mar/terra” em seu
mundo próprio e isolado, foi inundada pela transformação em nome da modernidade
e bem estar do cidadão, mas com uma devastadora descaracterização do seu ser,
de sua cultura. A eletricidade, a televisão, o computador a internet, as
lanchas a motor, o automóvel, as estradas de rodagem, os grandes hotéis, os
grandes supermercados, os grandes condomínios (ocupando as praias e isolando o
caiçara do seu mundo de liberdade), etc., tudo mudou, é outro mundo dentro de
seu mundo. “Naqueles tempos mil veiz melhor do que agora”. Benedito Manuel dos
Santos 80 anos, “seu Kito”, como ela é conhecido. Depoimento feito em sua
residência no Bairro Sertão da Quina, 08 out. 2009, (caiçara nato, dos tempos
em que pescavam de canoa de um pau só e a comunidade caiçara era a mesma desde
a praia de Maranduba ao Sertão da Quina); parte de seu depoimento referindo se,
que melhorou muito ter as coisas perto ou dentro de casa, mas a falta de
segurança aumentou muito, seu Benedito continua: “por esses dias houve uns par
de robinho!” (roubo, furtos). O índice de criminalidade aumentou muito, pois
com a explosão populacional em uma localidade de turismo, com a falta de políticas
públicas a comunidade caiçara fica a mercê ou refém da violência. “Hoje em dia
não podemos plantar longe de casa ou deixar uma rede de pesca lá no mar, pois
as pessoas roubam tudo”, completa seu Benedito.
Água como observa a historiadora Marcílio, na virada do século XVIII:
Sendo
o caiçara um povo religioso e simples, esse fazia sua roça e quando não estavam
ocupados com esta agricultura de subsistência tiravam seu alimento do mar, o
qual, diga-se, não era apenas um celeiro de águas. O caiçara tinha com o mar
uma relação mais profunda. A pesca da tainha, por exemplo, era um espetáculo
impar. (MARCÍLIO, 1989, P. 27).
O Litoral Paulista foi bastante conhecido pelo uso de canoas pelo
caiçara e índios, canoas esta construída com um só tronco de árvore, chamada
canoa de voga (para transporte ou pesca), grandes canoas, em média acima de 7
metros, á remo com grande capacidade de carga e deslocamento, resistente e
duradoura.
Canoas
de voga, que não existem mais, eram primitivas embarcações providas do
aperfeiçoamento das igaras ou pirogas indígenas, mas que atingiam grandes
dimensões. Utilizadas antigamente aqui no litoral norte em longas viagens, no
precário transporte dos produtos regionais aos portos de Santos e Angra dos
Reis. Lamentavelmente, não se conservou nenhuma dessas embarcações –
construídas de um pau só, escavada a ferro e fogo, num desmedido desperdício de
madeira – não só para ilustrar o pretenso museu do caiçara, como para
testemunhar as grandes dimensões que atingiam, com capacidade para acolher e
transportar volumoso carregamento. (OLIVEIRA, 1983, P. 98).
Em um típico dia de chuva, característico do Litoral Norte Paulista.
Canoa de um pau só, vínculo (identidade) maior do caiçara.
A canoa era seu meio de transporte o elo de integração, onde só ela
podia transpor o isolamento da distância e a falta de comunicação.
O caiçara tinha uma relação muito grande com a canoa, e essa mesma canoa
o levavam a distâncias fazendo o transporte de cabotagem e a integração entre
cidades distantes como Santos e Angra dos Reis. Demonstrando que os caiçaras
não eram assim tão isolados e tinham uma intimidade enorme entre canoa, oceano
e lugares distantes, tudo isso regido pelo tempo. Tempo, “a gente observava os
ventos em sua posição, a estação da lua, a maré, conversava um com o outro
sobre o tempo. E nunca uma viagem deu problema, ia e voltava tranquilo”.
Benedito Manuel dos Santos 80 anos. Depoimento feito em sua residência no
Bairro Sertão da Quina, 08 out. 2009.
A canoa e o caiçara, o caiçara e a canoa se fundem, se tornam um só, “Naquele
tempo viajavam para Santos em canos de voga. Levavam ovos, galinha, palmito,
laranja, batata-doce. Levavam até leitões e cabritos. Era tudo na base do remo,
e para remar uma canoa de voga é preciso seis homens, cada remador com dois
remos grandes”. Manoel Hilário Filho, 92 anos. Dona Evangelina comprova a
importância das canoas em suas necessidades de sobrevivência, “Aqui só tinha
duas vendinhas, e iam de canoa buscar mantimentos em Santos. Eram 15 dias pra
ir e 15 dias pra voltar”. Evangelina da Silva, 84 anos. Depoimentos contidos no
livro: Os Caiçaras Contam (ROVAI & FRENETTE, 2000, P. 66).
E podemos sentir o viver caiçara, sua memória, sua emoção em relatar a
sua passagem de vida em uma canoa: “Meu pai levava mercadoria de canoa a
Santos: pinga farinha de mandioca e porco (...). No retorno ele trazia sal e
querosene. De 1948 a 1950 fiz várias viage de canoa a Santos. Trabalhei doze
anos no alambique aqui do Sertão, eu, meu pai e os companheiros rolava os
barril de 100 litro de pinga daqui lá na praia para embarcá”. Benedito Manuel
dos Santos 80 anos, (seu Kito). Depoimento feito em sua residência no Bairro
Sertão da Quina, 08 out. 2009. Seu Benedito chegou a construir algumas canoas,
e hoje em dia muitos (principalmente turistas), pedem para ele confeccionar o
remo para servir de enfeite nas varandas de suas casas de veraneio. “Já não dá
mais, não tem madeira”, nos informa seu Benedito! A distância que seu Benedito,
pai e companheiros rolavam os barris de cachaça eram de 3 km, do Sertão a praia
de Maranduba. [Que fim levou o alambique seu Benedito?] “Tudo para o ferro
veio”.
Hoje os caiçaras ficam infelizes em saber que não se pode mais retirar
uma árvore para confeccionar ou construir sua canoa de um pau só. Herança
deixada pelos índios e marca de identidade dos caiçaras do Litoral Norte
Paulista, está proibida por lei. Com a criação dos Parques Estadual, regulamentado
na década de 1970, com a sanção da lei de proteção a Mata Atlântica no final de
2006. Lei para proteger um dos biomas mais importantes e ameaçados do mundo.
As árvores estão algumas em extinção e outras em processo de extinção. Assim
como essa cultura caiçara de ligação de sobrevivência com a sua canoa. As
madeiras utilizadas no feitio das canoas de um pau só no Município de Ubatuba
são o guapuruvú, ingá, cedro, timbuíba. Essas quatros madeiras representam “86%”
das canoas de Ubatuba e o restantes são: jequitibá, figueira, Angelim, louro,
canela, caobi e cubirana.*
Os nomes de batismo usados nas canoas caiçaras são em homenagem a
pessoas queridas, de muita importância a eles ou de ligação com o
cristianismo.
Os remanescentes caiçaras do Sertão da Quina, não usam mais canoas de um
pau só para pescar. Hoje existe “quinze canoas” de um pau só, na praia de
Maranduba. Quase todas elas em descanso eterno, algumas servem de transporte
até os barcos maiores de pesca, ou trazem os peixes até a praia para ser
vendido diretamente ao turista. As canoas ficam expostas com os peixes na
areia, como se fossem uma banca de feira vendendo peixe. *
Os dados (86% e quinze canos),
retirados do livro “Com quantas memórias se faz uma canoa”, p.31
Os Caiçaras Contam (ROVAI & FRENETTE, 2000, P. 14).
(ROVAI & FRENETTE, 2000, P. 66).
Os Caiçaras Contam (ROVAI & FRENETTE, 2000, P. 14).
(ROVAI & FRENETTE, 2000, P. 66).


